A TÉCNICA MODERNA DE CAÇA AOS POMBOS TORCAZES COM VARA

Introdução

A caça aos pombos torcazes com vara constitui uma das técnicas de caça mais elaboradas e que necessita, para além de uma quantidade apreciável de equipamento, de uma aprendizagem mais prolongada e de uma habilidade natural que faz com que, frequentemente, seja apelidada de “arte”. Podendo existir algum exagero nesta afirmação, pois, efectivamente, está ao alcance de todos os que tenham alguma vontade e persistência, não deixa de constituir uma modalidade de caça tremendamente apaixonante e que conta cada vez com mais adeptos.

Esta modalidade, apesar de praticada há já muitos anos, mais ou menos da mesma forma, sofreu recentemente uma evolução extraordinária tanto ao nível do equipamento como dos próprios pombos.

 As varas tradicionais

Antes de me debruçar pela técnica de caça propriamente dita, vou passar à descrição do componente mais importante do equipamento: as varas.

As varas originais não eram mais do que uma cana, normalmente em bambú, com a flexibilidade adequada, colocada em posição quase horizontal no interior da árvore, ficando o pombo de vara, normalmente encarapuçado, fixo num champil em cortiça na extremidade saliente da vara, na zona baixa da copa, com o bico virado para o seu interior, por forma a estar virado para o vento, já que os pombos fazem a sua entrada nesse sentido. Tratava-se (e trata-se) de um sistema eficaz, mas apenas quando os torcazes já se encontravam na proximidade da armação. Como (enormes) limitações tinha a reduzida visibilidade, por se encontrar numa aba da árvore, e a impossibilidade de se ajustar a mudanças na direcção do vento. Estas varas, mais tarde, foram substituídas por outras, um pouco mais elaboradas, constituídas por dois segmentos rectos, em madeira, articulados através de uma mola.

Posteriormente, com a popularização da caça com vara, sobretudo os caçadores “da cidade” começaram a utilizar uma adaptação metálica desta vara que, embora funcionasse de forma análoga, possuía um extensível vertical que permitia a sua montagem sem necessitar de subir à árvore onde era instalada

Vara tradicional com mola

Em Espanha a técnica diferia um pouco. A vara mais utilizada era constituída por um travessão horizontal, em madeira, com um metro ou um metro e meio, onde era colocada perpendicularmente, uma outra peça, também em madeira e com comprimento análogo, articuladas entre si. Esta última peça ficava móvel, rodando em torno da primeira, que era fixa pelas extremidades no alto da copa. O champil, também de cortiça, era colocado na extremidade que ficava saliente da copa, novamente com o pombo virado para o seu interior, pelo motivo referido atrás. Aquele, se fosse de qualidade, possuía alguma folga, o que permitia que, a trabalhar, se destacasse ligeiramente da base do champil.

Este sistema (vara de balanço), quando bem montado, era razoavelmente eficaz, por permitir colocar o pombo no topo da copa, embora fosse complicado conseguir esse objectivo. Para conseguir a sua colocação naquele local, para além da natural dificuldade de acesso a uma zona com rama frágil, incapaz de suportar com segurança o negaceiro, era necessário desbastar em quantidade a rama no topo da árvore (o que normalmente não é permitido) para dar visibilidade ao pombo de vara, o que constitui, no seu todo, uma manobra de êxito duvidoso, perigoso e demorado. Na imensa maioria das vezes o pombo, em resultado das limitações referidas, ficava demasiadamente no interior da copa, tornando o sistema sofrível.

O tipo de vara referido no parágrafo acima, já recentemente, sofreu também uma adaptação metálica, com extensível, que permite a sua montagem verticalmente sem subir à árvore. A sua montagem no topo da copa também não é fácil, quer pelo acesso difícil, quer sobretudo, por se tratar de uma vara onde que é necessário accionar a sua rotação através de um “puxão” na extremidade do braço, o que provoca desequilíbrios e, consequentemente o “varejar” de todo o conjunto, dificultando o trabalho do pombo. Por outro lado este último também não se pode destacar da base de forma muito evidente.

 Vara de balanço metálica

As varas modernas

Na caça aos pombos torcazes com vara, as inovações, quer ao nível da técnica quer mesmo no que se refere à qualidade dos pombos, têm vindo, sobretudo, de Itália. Foi neste país que foi concebida a vara que, sendo completamente diferente das que referi, consegue aliar as características mais marcantes que deve ter uma vara, aumentando, imensamente, a sua eficácia. Trata-se da vara vertical de copa ou vara de êmbolo.

 

Ponteira para vara vertical de copa

Esta vara, apesar de se destinar a ser montada no alto da copa, tem uma montagem muito fácil, mesmo a partir do solo, utilizando os segmentos extensíveis em aço ou alumínio. O pombo, desde que adequadamente treinado, é colocado no champil, uma base circular, ainda no solo, e passa através da rama até ao local onde vai “trabalhar”, no alto da árvore. Todo o conjunto pode ser fixo subindo à árvore, através de dois elásticos, ou a partir do solo, através de um gancho que evita os movimentos da vara. Estes últimos, podendo sempre existir, são muito reduzidos neste tipo de vara por esta ter movimento vertical, com ausência de momentos de força, istoé, rotações que desequilibram o conjunto, não tendo por isso tendência a varejar.

Vara vertical com pombo em acção

Um outro aspecto determinante neste tipo de varas que marca enormemente a diferença para as varas clássicas é o movimento do pombo. Ao ser arremessado ao ar, o pombo faz um movimento vertical até voltar a pousar no champil. Esta característica, aliada à posição que o pombo ocupa no topo da copa da árvore, confere a esta vara uma enorme visibilidade que é, sem qualquer dúvida, a sua grande vantagem.

A montagem no topo da árvore permite ainda que o pombo de vara trabalhe sempre, independentemente da direcção do vento, o que, em certos dias também poderá ser uma mais-valia.

Com pombos de vara muito bem treinados, a eficácia desta vara ainda pode ser melhorada aumentando o comprimento do fio que o liga à base. Com esta alteração, o movimento do pombo deixa de ser simplesmente vertical, passando a percorrer uma espiral, tornando-se, por isso, mais apelativo.

As melhores varas verticais existentes no nosso país são importadas de Itália, embora já sejam construídas em Portugal varas que se aproximam daquelas, com a vantagem de serem mais baratas.

Uma outra vara recente, também eficaz, foi igualmente desenvolvida em Itália. Trata-se do rolo. Este pode ser utilizado em qualquer ponto da copa e também, com toda a facilidade, no solo. O funcionamento desta ponteira, onde um rolo é accionado através de uma mola, desequilibra o pombo, que bate as asas, chamando assim a atenção dos seus congéneres silvestres. Embora com variantes, este tipo de vara, com o pombo preso e montada na árvore onde se encontra a armação, poderá ter uma função semelhante à que era desempenhada a vara de mola tradicional, com a vantagem de poder ser montada em qualquer ponto da copa e, por ter um movimento praticamente vertical, não varejar.

 

Ponteira de rolo com mola

Pombo de vara a trabalhar em ponteira de rolo livre

Os pombos

Tão importantes como as varas, pois uns sem os outros são completamente ineficazes, são os pombos. Da mesma forma que uma vara de “alta tecnologia” não serve para muito com um pombo mal treinado, também o melhor pombo do mundo será muito pouco eficiente se trabalhar numa vara inadequada ou para a qual ele não foi treinado.

O objectivo deste artigo não é uma descrição exaustiva do que devem ser os pombos de vara, matéria que só por si justificaria um texto maior do que este e não isento de polémica, dada a inexistência de consenso relativamente a diversas características, das quais enuncio só como exemplo o “desguiar” ou o “guiso”, tão queridos de uns e completamente desprezados por outros. Ainda assim referirei que importa que os pombos sejam muito mansos, pois isso facilita o seu treino e o seu trabalhar em acto de caça. Importa também que sejam o mais semelhantes possível com os torcazes, pois estes, sobretudo os mais velhos e experientes, conseguem distinguir a diferença entre os seus congéneres e um pombo de vara tradicional, com riscas negras nas costas e a plumagem por baixo das asas praticamente branca , tornando-os muito menos eficientes, sobretudo quando os torcazes se encontram em grandes bandos, como acontece em Dezembro.

Os únicos pombos que reúnem as características enunciadas acima são as raças francesa “Azul de Gascogne” e italiana “Asa Lisa”. Tanto uns como os outros foram apurados ao longo de muitos anos para serem semelhantes aos torcazes. Esta semelhança pode ainda ser melhorada através de uma coloração apropriada (ver foto).

Francês “Azul Gascogne” com coloração

A disposição das varas no terreno

As varas verticais, embora sejam de longe as mais eficazes a atrair os pombos torcazes, têm no entanto uma particularidade que condiciona a sua colocação no terreno. Devido à sua visibilidade, chamam os pombos de muito longe, mas estes tendem a passar sobre o pombo de vara, a baixa altitude, mas sem procurarem pousar, pelo menos de imediato. Esta característica obriga a certos cuidados na colocação da vara (ou das varas, como adiante se verá).

1ªopção 

O sistema mais simples, e por isso menos eficiente, quando comparado com as alternativas aqui mencionadas, assenta numa vara vertical colocada numa árvore que deverá estar posicionada em frente da armação, a uma distância de 20 /30 metros. O seu accionamento é feito através de um fio que passa através de um rolete, fixo no chão na vertical da vara. Trata-se um sistema muito apelativo, mas, pela restrição referida no parágrafo acima, tenda a “controlar” mal a entrada dos pombos. Embora estes, tendencialmente, entrem de “bico ao vento” (lembro que a armação deverá ter sempre o vento “pelas costas”) e como tal na direcção do aguardo, a verdade é que, com toda a facilidade, poderão passar mais à esquerda ou à direita, reduzindo o aproveitamento e o número de peças cobradas.

1ª opção (1 vara)

2ª opção

Em vez de colocar apenas uma vara vertical frontalmente (op.1), deverão ser colocadas duas varas verticais lateralmente, em árvores distantes cerca de 15 /20 m, uma à esquerda e outra à direita. Esta montagem permite aumentar substancialmente o rendimento, pois torna possível, em função da forma como os pombos abordam a armação, trabalhar mais à direita ou mais à esquerda, consoante se pretende puxar os torcazes mais num sentido ou noutro. Isto é, se, num lance, os pombos entram excessivamente por um dos lados, devemos chamá-los com a vara vertical do outro lado, de forma a corrigir a sua trajectória na direcção do aguardo ou das “madrinhas”. Isto só é possível pela excelente visibilidade dos pombos de vara a trabalharem no alto da copa, como só esta vara permite. Um bom negaceiro, com duas varas verticais, na esmagadora maioria das situações, conduz os pombos na direcção que deseja.

2ª opção (2 varas)

3ª opção 

Esta não é mais do que a soma das duas anteriores. Por isso é, indiscutivelmente, mais eficaz.

A montagem de uma vara vertical numa árvore em frente do aguardo, sobretudo se tiver maior curso ou se tiver o fio que a liga ao pombo de vara mais comprido, para que o pombo possa subir mais, permite aumentar a eficácia do conjunto quando os torcazes se encontram mais afastados, tornando visível e mais apelativo todo o conjunto. Quando estes já se encontram em aproximação na proximidade do aguardo, apenas as varas laterais devem trabalhar da forma referida na op.2.

3ª opção (3 varas)

4ª opção

Trata-se, mais do que uma opção, de um complemento, pois se acrescermos à opção anterior (ou a qualquer uma das outras) uma vara de rolo ou uma vara de mola tradicional, na copa da árvore onde se encontra o aguardo, então a probabilidade de os torcazes em aproximação se dirigirem para poisar sobre as nossas cabeças aumenta substancialmente, tornando ainda o conjunto um pouco mais eficaz. A utilização deste conjunto só é possível com um negaceiro muito hábil, pois, embora trabalhando em tempos diferentes, terá de operar com quatro varas distintas.

Todas as opções referidas poderão (e deverão) ser completadas com pombos vivos ou mortos, colocados no solo, ou ainda pombos artificiais, colocados, da mesma forma, no solo, ou ainda na copa das árvores. Havendo “mãos livres”, isto é, ajudantes de negaceiro, eventualmente colocados nas madrinhas, podem ainda ser utilizados um ou mais rolos no chão, com pombos de vara, colocados entre os referidos acima, para dar movimento e vivacidade ao conjunto.

4ª opção (3 varas verticais e um rolo)

PAULO  SANTANA 

www.paixaoazul.pt


Contribuições encerradas.