AS “ESPANHOLAS” COMO COMPLEMENTO DA CAÇA AOS POMBOS TORCAZES COM VARA

INTRODUÇÃO

Embora se trate de uma matéria bem conhecida por muitos, a Paixão Azul entendeu produzir um texto sobre as nossas espanholas, por se admitir poder ter alguma utilidade sobretudo para os que se iniciam na caça aos pombos torcazes. O que aqui é exposto resulta da experiência de muitos anos da nossa equipa, embora, como em todas as questões ligadas à caça aos torcazes, possam existir sempre diversas opiniões, muitas vezes até contraditórias.

 A TÉCNICA

A caça com espanholas, isto é, com pombos encarapuçados constitui uma técnica muito válida, sobretudo como complemento da caça com pombos de vara. Esta forma de caçar consiste no arremesso ao ar de pombos que, estando encarapuçados, são impedidos de ver, o que faz com que, com o adequado treino, eles esvoacem até cair no terreno, dando a sensação aos seus primos silvestres de que se trata de congéneres que levantam da árvore onde se encontra a armação, para pousarem no chão.

O arremesso deverá ser feito com algum cuidado. A mão do negaceiro não deverá aparecer acima do abrigo e a força utilizada no movimento poderá ser variável, em função do voo maior ou menor pretendido. Embora haja quem não faça assim, a nossa experiência aconselha a que o lançamento das espanholas, em quantidade variável, seja feito no início do lance, para chamar a atenção dos torcazes em aproximação, devendo ser evitado o seu lançamento quando já se encontram na proximidade e a dirigir-se à armação, pois, por vezes, devido ao tipo de voo realizado, aquelas causam o efeito contrário, isto é espantam os pombos, sobretudo quando estes já estão muito “escaldados”. Por esta razão, deveremos separar as nossas negaças em função do seu voo: por um lado as de voo largo, que deverão ser as primeiras a ser arremessadas, e por outro, as de voo curto, a utilizar no final. No nosso entender, a utilidade das espanholas tem essencialmente a ver com o chamar a atenção dos bandos de torcazes, desviando-os na nossa direcção, devendo o restante trabalho ser feito apenas com os pombos de vara, bastante mais apelativos e, sobretudo nos dias mais difíceis, menos propícios a espantar os pombos em aproximação.

FOTO 1                                          Espanhola em acção

A quantidade de pombos a utilizar com esta técnica pode ser muito variável. Se, no início da caça, meia dúzia são suficientes, pois não é muito relevante ter mais do que uma espanhola a voar em simultâneo, o mesmo já não acontece em Dezembro, mês dos grandes bandos, onde importa, logo no início do lance, dar movimento à armação, através do lançamento simultâneo de um número mais significativo. Nesta altura do ano, por forma a evitar a sistemática recolha das espanholas lançadas e o cansaço das mesmas, não será de estranhar que o negaceiro trabalhe com vinte ou mais pombos encarapuçados.

Para além de uma coloração da plumagem inadequada, algo de que se falará mais adiante, o defeito mais comum que os pombos encarapuçados apresentam é voar excessivamente alto, subindo muitas vezes na vertical, movimento que é acompanhado de um bater excessivo das asas, e que tem quase sempre como consequência espantar os torcazes em aproximação. Nesta situação, a única forma de impedir que os torcazes se afastem, mas que não funciona sempre, é lançar de imediato várias outras espanholas, dificultando que aqueles se foquem na espanhola que voa na vertical e que normalmente se afasta, passando a estar mais atentos às outras que voam adequadamente nas imediações da armação.

Um outro defeito, menos nocivo e mais fácil de eliminar, tem a ver com o lançamento de pombos que, ou porque não prestam ou porque já estão excessivamente cansados, caem para o chão quase sem baterem as asas. Este movimento não é nada apelativo e só não espanta mais porque tem uma amplitude muito pequena. Os pombos com essa característica devem ser descartados. Se se tratar de cansaço, então devem ser postos de parte durante o resto da jornada.

FOTO 2                                Carapuça artesanal (muito boa e prática)

ACESSÓRIOS

Neste tipo de caça os acessórios são muito parcos. Para além da obrigatória carapuça, pouco mais há a referir. Tem alguma utilidade a utilização de uma caixa com uma tira que permita o seu transporte ao ombro do caçador, para facilitar uma recolha mais eficiente das espanholas no terreno.

FOTO 3                                      Pombo com carapuça

Também é muito útil a utilização de um ou mais poleiros no interior do abrigo, à altura adequada para arrumar muito bem as espanholas “à mão” para o lançamento.

FOTO 4                                      Foto interior no abrigo

Um outro acessório de utilização quase obrigatória consiste numa vara telescópica (com 6 ou 7 m), com um tipo de base ou poleiro na extremidade, utilizada para retirar as espanholas da copa das árvores onde, por casualidade pousaram, o que é frequente,.

FOTO 5

                                                 Vara telescópica

Um dos problemas desta técnica é a recolha dos pombos encarapuçados, após o seu lançamento, não sendo mesmo rara a sua perca pela dificuldade em os localizar. Por esta razão, há quem diminua esse risco através da utilização de um guizo preso á carapuça, que facilita a sua localização devido ao som emitido pela espanhola quando sacode a cabeça ou quando tenta retirara a carapuça com a pata, algo que faz com alguma frequência.

FOTO 6                                              Carapuça com guizo

Também há quem utilize um tipo de sapatas, que impedem que a espanhola consiga ficar pousada nas árvores, pois não lhe é possível agarrar-se aos ramos.

FOTO 7                                                       Sapatas

Embora com vantagens evidentes, os guizos têm o ligeiro inconveniente de poder ser incomodativos quando as espanholas se encontram no poleiro, no interior do abrigo, devido ao som emitido. Por seu lado as sapatas, para além de um pouco caras, obrigam a substituir o poleiro do abrigo por uma base, menos ergonómica para o caçador, por ocupar mais espaço, e menos prática de utilizar, pois as espanholas deixam de estar alinhadas com as costas voltadas para o negaceiro, o que dificulta um pouco o seu manuseamento.

OS POMBOS

Os pombos a utilizar não devem voar demasiado, pois são eficazes apenas quando se encontram a trabalhar nas imediações do abrigo. Podem ser utilizados quaisquer pombos de cor cinzenta, de preferência com pouco negro nas barras das asas. Os pombos com um bom guizo são particularmente bons, pois normalmente voam bem, sem o fazer em demasia, sendo o seu voo acompanhado pelo tão apreciado “guizo”, característico dos pombos de vara tradicionais portugueses.

FOTO 8                                            Pombo nacional

Uma melhoria que pode ser introduzida nos pombos destinados a espanhola é a coloração branca nas asas, similar à existente nos pombos torcazes (ver figura).

FOTO 9                                           Coloração das asas

O ENSINAMENTO

Preferencialmente, o treino deve ser iniciado com pombos ainda borrachos a partir do momento em que dominem bem a técnica do voo, embora possam ser treinados em qualquer idade. Deverão ser escolhidos dias sem vento.

No início, após a colocação das carapuças, pousam-se os pombos num poleiro semelhante ao que vai ser utilizado em acto de caça, até que fiquem calmos nessa condição. Numa das patas deverá ser colocado um piós simples (ver foto). Este deverá estar ligado a um fio com um comprimento da ordem dos 20 m.

FOTO 10                                                     Piós e fio

Após ter decorrido algum tempo de habituação ao poleiro, o treino inicia-se colocando o pombo na palma da mão e fazendo subir e descer a mão, o que faz com que ele bata as asas, devendo ser repetido o processo até que ele esteja familiarizado com o movimento. Posteriormente, larga-se o pombo para o chão desde uma altura da ordem dos 50 cm. Aquele irá esvoaçar e esticar as patas de forma a amortecer a queda. Quando estiver novamente habituado à situação, aumentamos a referida distância para cerca do dobro, repetindo o processo, até que ele poise no chão delicadamente de forma perfeitamente natural. Se em alguma situação o nosso candidato a espanhola fizer intensão de subir, deve ser puxado bruscamente pelo fio, até cair, de modo a que ele entenda que o movimento não deverá ser realizado dessa forma. Com a prática, esta ocorrência indesejada deverá desaparecer rapidamente.

Demorando em cada fase sempre, pelo menos, o tempo que for necessário à adaptação do nosso pombo, vamos aumentando a distância a que permitimos que ele se afaste de nós até ao limite do fio. Nessa altura ele já deverá voar razoavelmente bem e pousar de patas estendidas com suavidade. Então, retiramos-lhe o piós e procedemos ao seu arremesso sem que esteja preso. Se tudo correr bem, deverá estar apto a caçar.

Se não for possível manter alguma regularidade no treino das nossas espanholas, pelo menos teremos que realizar uma ou duas sessões nas duas semanas que antecedem a caça. Se tal não for possível por alguma razão, então, no primeiro dia de caça, os primeiros lançamentos deverão ser feitos utilizando novamente o fio com o piós, embora este procedimento tenha normalmente um preço a pagar na eficácia da nossa armação nesse dia.

FOTO 11

CONCLUSÃO

Temos toda a convicção de que a caça aos pombos torcazes deve ser realizada, no essencial, com pombos de vara. Esta forma de caçar é indiscutivelmente a que se traduz em maiores alegrias, não só pelos quantitativos conseguidos nos abates, como pela forma apaixonante como o chamamento é concretizado. No entanto, consideramos que este tipo de caça pode ser melhorado através da utilização de outros métodos complementares que permitem aumentar o realismo de todo o conjunto que constitui a nossa armação. Referimo-nos não só à colocação de negaças estáticas, em neoprene (preferíveis) ou em plástico, nas árvores e pombos, anteriormente abatidos, no solo, na frente do nosso aguardo, mas sobretudo à utilização de pombos encarapuçados, vulgarmente conhecidos por “espanholas”. Estas, sobretudo se forem utilizados os pombos mais adequados e muito bem treinadas, constituem um auxiliar quase imprescindível se se pretende maximizar os resultados.

Boas caçadas.

Paulo Santana


Contribuições encerradas.