O AGUARDO NA CAÇA AOS POMBOS TORCAZES COM VARA

 INTRODUÇÃO

Embora possa parecer uma questão menor, na realidade, quem pretende ter algum êxito na caça aos pombos necessariamente terá que dominar a técnica de construção dos aguardos, sejam eles naturais ou artificiais. Não é possível fazer uma boa caçada se o negaceiro e restantes companheiros nas madrinhas não estiverem muito bem tapados. É determinante que os “muitos olhos” de um bando de torcazes em aproximação não possam vislumbrar na nossa armação uma ameaça.

A construção de um aguardo de qualidade, utilizando apenas matéria natural, ramagens ou mato, muito utilizada no passado pelas diferentes gerações de pombeiros, por ser difícil e demorada, é hoje quase uma arte, ficando, por isso, fora do âmbito deste artigo.

Embora a construção de um aguardo seja matéria relativamente simples, não é bem dominada por muitos e espero que mesmo os que são já experientes neste tipo de caça possam aprender algum pormenor útil nas linhas que se seguem.

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OBJECTIVO

O aguardo deverá permitir encobrir os caçadores durante todo o lance de caça, isto é, desde que se começa a chamar os pombos até ao seu abate. Para isso deverá estar completamente mimetizado com o ambiente que o rodeia, mas também deverá permitir ao negaceiro visualizar os torcazes em aproximação sem os alertar, enquanto trabalha com as varas e, eventualmente, procede ao lançamento de pombos cegos ou espanholas. O aguardo deverá ainda permitir que os disparos se façam com a necessária visibilidade e com o atirador sem estar em equilíbrio precário, de modo a não aumentar, desnecessariamente, os tiros errados.

Por outro lado, o aguardo também deverá ser instalado de forma relativamente rápida e deverá resistir ao vento, sem varejar ou mesmo cair. Normalmente o aguardo principal da armação deverá permitir a ação de um negaceiro e de uma espingarda, devendo os das madrinhas (uma  ou duas) albergar apenas um ocupante com espingarda.

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                                                            Completamente mimetizado…

 LOCALIZAÇÃO

A localização do aguardo principal necessariamente deverá ocorrer, com o vento pelas costas, sob a copa de um sobreiro ou azinheira, mais ou menos recolhido, consoante a época do ano. Importa sempre ter em conta que é necessário poder atirar em condições de não errar, mas também não podemos ficar demasiadamente expostos sobre a cabeça, pois corremos o risco de espantar os pombos. Este aspeto é ainda mais relevante quando os pombos voam altos e muito agrupados, normalmente entre o final de Novembro e o início de Janeiro. Nesta altura do ano, uma armação que possua os aguardos demasiadamente salientes relativamente às copas, visando facilitar os tiros, pura e simplesmente é muito pouco eficaz, provocando a fuga da maioria dos bandos. Nesta fase, os bandos quando entram à armação, fazem-no rodando várias vezes em espiral sobre o local onde estamos armados, pelo que se não nos encontrarmos devidamente tapados por cima e por trás, empreendem imediatamente a fuga.

Embora se observem os mesmos princípios do aguardo principal, no que toca ao equilíbrio entre a facilidade do tiro e a necessidade de o caçador se encontrar completamente dissimulado dos bandos a entrar à armação, a localização das madrinhas é muito variável, tendo a ver essencialmente com dois aspetos: saída dos pombos e qualidade do atirador. A maneira mais trivial consiste em colocar uma madrinha perto do aguardo principal, na linha de saída dos pombos, também de costas para o vento. Embora menos agradável, por não permitir disfrutar de igual modo os lances, sobretudo para um bom atirador, também é muito eficaz colocar a madrinha de costas para a entrada dos pombos, i.e. virada para o aguardo principal, também na linha de saída dos pombos. O caçador ou caçadores que se encontram nas madrinhas devem sempre aguardar pela indicação do negaceiro para realizar o disparo. Alternativamente, no caso de se encontrar uma arma no aguardo principal, deverá ser este a realizar o primeiro disparo.

ESTRUTURA

No essencial, um bom aguardo é suportado por uma estrutura metálica, preferencialmente em ferro, para lhe dar estabilidade e para resistir melhor em dias de vento. Essa estrutura é coberta por um pano camuflado, sendo todo o conjunto, posteriormente, coberto por uma rede camuflada.

O acabamento é feito através de ramagens colocadas sobre a rede camuflada de modo a que tudo fique completamente mimetizado com o ambiente circundante. A rama deve ser colocada com o cuidado de deixar virado para o exterior a folhagem mais escura e sem brilho, tal como ocorre no coberto vegetal que nos rodeia.

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ALTURA

Os aguardos suportados por uma estrutura metálica, em ferro, permitem fazer variar a sua altura até, normalmente, um máximo de 1,80 m. Esta possibilidade é determinante para um ajustamento perfeito, que deverá ser feito considerando a altura dos olhos do negaceiro. Deste modo este pode olhar até ao horizonte, sobre o aguardo e através das ramas que se encontram colocadas no topo, sem se expor em demasia a ser visto.

Embora, do nosso ponto de vista, todos os caçadores que se encontram na armação devessem também proceder da mesma forma, aconselhamos que, pelo menos o negaceiro possua na cara uma rede camuflada que vai impedir que seja visto a grande distância pelos torcazes. Com alguma atenção, verificamos que a cara contrasta bastante com o meio envolvente à armação e, se isso é evidente para nós, o que não acontecerá com os pombos, que têm uma acutilância visual muito superior à nossa.

Existem já redes no mercado que são muito ergonómicas e que “nem as sentimos” quando estamos em ato de caça. Não duvidamos que esta constitui uma mais-valia sobretudo porque, desde que não se façam movimentos bruscos, podemos olhar sobre o aguardo com muito mais confiança em não sermos vistos, algo muito importante, tanto para o negaceiro como para o atirador.

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Rede facial camuflada

MANOBRA DAS VARAS

Como todos sabem, o negaceiro atua as varas a partir do aguardo através de fios de comando. A operação destes fios pode ser feita de diversas formas, no entanto aquela que nós praticamos e que mais aconselhamos consiste em traccionar os fios, passando-os por aberturas no pano do aguardo. Estas deverão estar à altura das mãos, de modo a que o negaceiro possa trabalhar sem ter que se baixar, possibilitando seguir os pombos em todos os momentos ao longo do lance, sempre com os olhos à face do limite superior do pano ou da rama.

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Abertura para passagem do fio 

DETALHES ADICIONAIS

Resmalho

Muitos caçadores de pombos consideram que o aguardo deve estar colocado à sombra para não ser visto. Embora esta colocação seja desejável, normalmente não é possível, pois é imperativo que a armação esteja colocada com o vento pelas costas. No entanto, sabendo que os bons dias de caça aos pombos ocorrem com sol e céu descoberto, ou seja, no outono e no inverno, com ventos do quadrante norte, então será fácil concluir que estaremos maioritariamente virados para o quadrante sul, com o sol pela cara e não como seria desejável, à sombra. Este facto põe um problema: muitos tiros são feitos em condições precárias devido ao sol.

Existe uma solução que, não sendo perfeita, reduz substancialmente os tiros errados devido ao excesso de luz do sol nos olhos: o resmalho. Este não é mais do que uma vara, com ramagens no topo, colocada na estrutura do aguardo, em posição elevada, de forma a criar sombra nos olhos do atirador. Em vez de ramos há que utilize uma chapa desdobrável, coberta com rede camuflada. É muito eficiente no que respeita ao fim pretendido, mas tem o defeito de poder limitar o swing em tiros a torcazes que cruzem lateralmente a armação.

Colocação do Pano

A colocação do pano camuflado sobre a estrutura metálica deve ser feita até ao chão, para evitar que alguma espanhola que se encontre caída no chão do nosso aguardo possa ficar presa pelos arames da carapuça. Trata-se de algo que, a não ser observado em tempo, se traduz na perda desnecessária de algumas espanholas ao longo da época, por perderem a carapuça.

Arames para fixação de rama

Um pormenor, que ajuda muito a compor rapidamente o aguardo, prende-se com a colocação de arames no topo superior, que vão permitir a fixação expedita de rama, num local onde ela é determinante (ver foto). Acresce ainda que esta rama permite reduzir sensivelmente a quantidade daquela que seria necessária se tivesse-mos de a colocar apenas encostada à nossa estrutura de suporte do aguardo.

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Arame para fixação da rama

 Poleiro para Espanholas

Fixo à estrutura metálica do aguardo, deveremos colocar, à altura da mão, um ou mais poleiros, que permitam aí colocar as nossas espanholas em uso. Isso facilita muito a sua utilização.

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Poleiro para espanholas ou pombos cegos

Espero que estas linhas vos tenham sido úteis.

Boas caçadas.

Paulo Santana

 


Contribuições encerradas.