DESGUIAR DOS POMBOS DE VARA

Com muita frequência somos questionados pelos nossos amigos sobre como deverão proceder para “desguiar” os seus pombos de vara. Por essa razão, entendi desenterrar um assunto que os (raros) verdadeiros negaceiros do passado dominavam, mas que hoje poucos conhecem, apesar de se tratar de algo muito simples.

O “desguiar” insere-se num tema bastante mais vasto que é a preparação dos nossos pombos de vara e demais negaças para a caça aos pombos torcazes. É sabido que, antes de se iniciar a actividade venatória, há que fazer uma selecção cuidada das características que devem possuir os nossos pombos. Só assim poderemos ter sucesso numa actividade que nos apaixona.

De facto, importa fazer uma selecção das melhores características que tornam um pombo capaz de exercer a “nobre” arte de Pombo de Vara. Entre outras, referimo-nos à sua resistência, aliada à força nas patas, à sua atitude no poleiro e à sua capacidade de voo. Tudo isto tem de se conjugar num pombo que seja de raça apropriada, com uma cor o mais semelhante possível aos torcazes e, preferencialmente, sem barras negras.

Intencionalmente, no parágrafo anterior não referi o “guizo”, característica que muitos negaceiros e aspirantes a negaceiros valorizam acima de todas as outras. Esta característica, dada a polémica a ela associada, só por si, daria para escrever um artigo deste tipo. Eu acredito que o guizo, na realidade, não é tão importante. Hoje é possível chamar os pombos torcazes a grandes distâncias, o que torna impossível que estes possam ouvir o referido “guizo” das nossas negaças e não é por isso que deixam de se dirigir á armação. Este facto é totalmente confirmado quando caçamos em dias húmidos, onde mesmo os pombos com muito guizo, deixam de o ter e não é por isso que os torcazes deixam de ser atraídos ao “engano” criado pelos negaceiros. Ainda assim, admito que é uma característica “simpática”. Julgo que não haverá nenhum negaceiro que não goste de ouvir o guizo dos seus pombos de vara. Ainda pela positiva devo referir que, em situações em que o negaceiro não possa ver o seu pombo de vara, como é o caso das ponteiras de rolo utilizadas na árvore da armação, é importante ouvir o bater de asas do nosso pombo para saber que tudo funciona correctamente e aí o guizo tem um papel determinante. Em resumo, mesmo não achando que seja uma característica demasiadamente importante, gosto que os meus pombos tenham um bom “guizo”.

Pombo de Guizo adequadamente desguiado

Após termos escolhidos as aves que apresentam as melhores características e elas estarem convenientemente treinadas, importa dar-lhes o tratamento adequado, ou seja, para além de lhes facultarmos a alimentação e complementos necessários à sua boa saúde, fundamental para garantir que irão ter o desempenho que esperamos, importa tratar-lhes adequadamente da plumagem. Neste capítulo temos de considerar três aspectos fundamentais: o seu transporte, que deverá ser feito sempre em gaiolas ou caixas adequadas, a colocação no champil, que deverá ocorrer em finais do mês de Setembro, início do mês de Outubro e o desguiar, objecto deste artigo.

Gaiola para transporte de dois pombos em condições muito satisfatórias

Champil

A nossa prática segue com rigor aquilo que é a tradição, ou seja, quando se dá a passagem da Lua Nova para o Quarto-Crescente de Junho, devemos proceder ao desguiar dos nossos pombos. De acordo com aquela tradição, desguiar nesta altura do ano não só permite atingir o nosso objectivo de ter os nossos pombos rigorosamente emplumados no início da caça mas também possibilita que as guias (rémiges primárias) cresçam um pouco mais, melhorando o guizo do pombo.

A acção de desguiar consiste basicamente em retirar, na altura indicada, 3 ou 4 penas da extremidade da asa (rémiges) e todas as penas da cauda (rectrizes). Garantimos assim que na altura em que se inicia a caça aos pombos migratórios temos os nossos pombos de varas e demais negaças completamente emplumadas e com as caudas muito certas, como ocorre com os pombos torcazes. Só assim garantimos que os nossos pombos não caçam com falta de penas nas asas ou na cauda.

Rémiges a eliminar

Deverá ser dada especial atenção no arranque da pena às “penas de sangue”, ou seja às penas novas em que o cálamo e o ráquis ainda não maturaram, pois se uma pena neste estágio for arrancada isso dará origem a uma hemorragia complicada de parar. Também não devem ser arrancadas as penas que já mudaram, mais azuladas que as velhas.

Há que ter também atenção a que um pombo que for desguiado na altura indicada não poderá ser utilizado nas mais adequadas condições para trabalhar como pombo de vara na caça de Verão, em finais de Agosto e Setembro, pois a sua plumagem em crescimento não lho irá permitir.

Boas caçadas.

Paulo Santana


Contribuições encerradas.